Vivemos na era da globalização onde as doenças são consideradas universais na sua forma, conteúdo e desenvolvimento. Em qualquer lugar do mundo, determinada doença possui um reconhecimento de acordo com um saber cientifico. A tecnologia favoreceu a padronização da patologia.
O diagnóstico etiológico, sem duvida nenhuma é de grande valia, o risco que se corre é não ficar atento às dimensões socioculturais e psicológicas que determinam o sentido da doença para o paciente e sua família.
O individuo ao nascer, se depara com uma rede de significados que vão sendo assimilados e vivenciados no intercambio relacional. Esses significados nos dão sentido a cultura e a sociedade em que estamos inseridos. A partir das relações estabelecidas, entendimentos singulares são construídos. Cada família, cada indivíduo de acordo com sua história, crença, contexto, desenvolverá um entendimento e uma relação especifica com os fatos da vida. A generalização impede o reconhecimento das diferenças e da singularidade de cada pessoa, de cada grupo, podendo gerar estereotipos, preconceitos e até discriminações que afetam e empobrecem as relações.
Em nossa sociedade nos deparamos com a presença de termos médicos que fazem parte do nosso cotidiano, como derrame, depressão, enxaqueca, palavras que são muitas vezes utilizadas pelo paciente e sua família para descrever e dar sentido ao que estão vivenciando. A curiosidade frente ao significado dado ao conceito favorece a comunicação entre a equipe de saúde e o paciente, pois não necessariamente tem o mesmo significado. Muitas vezes o paciente se diz deprimido, mas na realidade não tem a doença depressão, se sente triste, ou estressado por questões pessoais.
A partir dessa reflexão não podemos padronizar a doença, podemos estar lidando com um mesmo diagnóstico, mas a relação com o mesmo é única e singular.
Através das ferramentas oferecidas pela Terapia Narrativa, pretendemos ampliar entendimentos, reflexões que viabilizam a flexibilidade e a criatividade numa situação que geralmente convida a estagnação pelo diagnóstico. O nosso trabalho tem como principal objetivo devolver a quem é de direito a autoria da sua história de vida, o PACIENTE.
A partir do diagnóstico o paciente e sua rede social tem que lidar com uma mudança de ritmo inesperado passam a ter que se relacionar com fatos, rotinas que não faziam parte do seu dia a dia, que dependendo dos significados implícitos e explícitos associados podem facilitar a adaptação ou gerar crises significativas que poderão comprometer a qualidade de vida dessas pessoas.
As narrativas do infortúnio favorecem sobremaneira a relação medico paciente, pois muitas vezes a dificuldade em tratar não está no medicamento, mas na forma como essa experiência traumática foi organizada, que sentido foi atribuído a essa experiência.
Aparentemente essa proposta parece dificultar o trabalho da equipe de saúde, mas na realidade ela favorece uma relação mais integrada, enriquecida por varias perspectivas de um mesmo quadro, possibilitando uma melhor qualidade assistencial.
Ao considerarmos a singularidade do adoecer criamos a possibilidade de uma assistência mais humanizada, evitando que o atendimento seja dirigido só para a patologia, incluindo no atendimento a pessoa do doente, sua família, seus sistemas de crenças, sentimentos, valores que exercem um papel ativo na doença e na saúde.
Assim motivados, os membros da equipe de saúde se interessarão mais pela pessoa do doente do que pela doença da pessoa.