Eu nunca poderia imaginar que um curso de terapia narrativa pudesse ser tão, digamos, terapêutico. Terminado o Curso Narrativa Rio I, fui para casa com a cabeça em borbulhas. Além de embasbacada com a clareza, a didática e a generosidade da australiana Shona Russel, fiquei com a sensação de que o meu cérebro estava em plena ginástica. Não era ioga, não, apesar da inspiração trazida pelo professor Diego, encarregado de promover pequenos intervalos de relaxamento durante o curso – no último dia chegou a tocar Cítara! A minha cabeça, apesar de familiarizada com oms e namastês, estava mais para um spinning mesmo, uma escalada, uma maratona. E foi nesse movimento acelerado que voltei alguns anos atrás para um consultório na Gávea, zona sul do Rio. Era uma casa grande, confortável, tranqüila. Acolhedora.
A sala do consultório onde eu estava também era agradável, com móveis charmosos, alguns livros à vista e um sofá com encosto duro. Era o que eu precisava, naqueles tempos de tendinites e dor na coluna. Encosto, aliás, que devia ferver depois das minhas sessões. Era a primeira vez que, convencida por uma fisioterapeuta, eu encarava uma terapia. Demorei para conseguir falar alguma coisa. Primeiro eu precisava chorar. Depois, suar como se estivesse debaixo de sol a pino no deserto do Saara. Aí, sim, às vezes eu conseguia balbuciar algumas palavras. E a maioria delas era “Não posso”. Não posso fazer isso, não posso aquilo, posso menos ainda aquilo outro.
Foi quando a minha terapeuta, Lucia Helena Assis Abdalla, a mesma que me convidou para fazer o curso de terapia narrativa, me perguntou, calmamente: “E o que é que você pode fazer?”. Aquele consultório tão certinho virou de cabeça pra baixo. Eu entrava numa onda daquelas bem agitadas, daquelas que, por alguns segundos, não deixam você saber se está com a cabeça voltada para o chão ou para o céu. Caixote total. Giro de baiana, ilê. Turning point, como diria a Shona. Ponto de virada. Ali começou a grande viagem. Porque, pensando nisso, boquiaberta, mais colada do que nunca no encosto que já parecia um forno e com os olhos estatelados naquela terapeuta tão ousada, respondi: escrever. Eu posso escrever. Sim, isso eu posso. Escrever. Escrever! Foi como se aquele momento tivesse se tatuado nos meus ossos e músculos doloridos. A partir daquele dia, sempre que saía do consultório, era como se as dores começassem a escorrer pelo volante. Eu estava dirigindo a caminho daquela menina de seis anos que, recém alfabetizada, escrevia livros em casa e participava de festivais de poesia, e que mais tarde escolheu o jornalismo porque, ora bolas, onde já se viu querer ser escritora?
Anos depois, quando ir ao consultório já era mais uma farra do que um sacrifício, recebi o convite para escrever o livro da Ana Karina, uma de suas pacientes. “Depois de escrever esse livro você nem vai mais precisar de terapia”, brincou a Lucia, já me avisando que a história dela não era bolinho. Ex-viciada em drogas das mais variadas, especialmente cocaína, Ana não era mesmo um personagem fácil de desenvolver. Mas estava topado o desafio. Lembrem-se, eu já podia muitas coisas.
Durante quase um ano, me encontrei sistematicamente com a Ana para as entrevistas. Foi difícil no começo. Imaginem colocar na mesma sala uma ex-viciada, com 14 tatuagens pelo corpo, rebelde até o último fio de cabelo, e uma jornalista tímida, discretíssima, que fica vermelha imediatamente quando precisa falar para mais de cinco pessoas. Ah, sim, e que não entendia nada, nadinha de drogas (cheguei a confundir ácido com ecstasy) nem de dependência química. Aos poucos, no entanto, o ambiente foi ficando mais confortável. E no curso, fazendo um dos exercícios, percebi claramente porque os depoimentos acabaram sendo tão ricos. Junto com uma psicóloga que também fazia o curso (eu era a única jornalista da área, verdadeiro peixe fora d’água), cheguei a duas palavras-chaves num determinado exercício: empatia e confiança.
Um depoimento, seja num contexto terapêutico ou jornalístico, só pode ser verdadeiro se houver, na relação entrevistador-entrevistado, o sentimento de confiança. E não há confiança sem empatia. Quando conseguimos realmente fazer um esforço para nos colocar no lugar do outro, para abrir mão da nossa própria imagem, dos nossos conceitos, das nossas tatuagens mentais, dos nossos carimbos, aí sim surge a empatia da boa, aquela que é de verdade e tem muito a ver com o amor. E aqui pausa para um trecho de uma entrevista com Contardo Calligaris, psicanalista citado no curso: “O amor é o grande agente de transformação, em todos os sentidos. Se a gente se transforma em alguma medida na infância é por amor pelos pais, se a gente se transforma numa terapia é por amor de transferência pelo terapeuta, se a gente se transforma numa amizade é por amor pelo amigo. O amor é o grande motor das transformações.” Estava na Marie Claire folheada no dia seguinte ao curso. Pareciam palavras encomendadas. Acredito sinceramente que, se a Ana se transformou enquanto recontava sua história, foi porque houve ali, de ambas as partes, uma dedicação de amor.
Do meu lado, decidi mergulhar fundo no projeto e, ao abraçá-lo, abrir mão da minha própria vaidade. É que logo percebi que, para não atrapalhar o fluxo das suas memórias, eu deveria interromper o mínimo, o mínimo mesmo possível. De preferência, era bom que eu não respirasse. Eu não estava mesmo preocupada com a ordem dos fatos (que são mesmo confusas, convenhamos, para quem usou droga a vida inteira). Eu estava atenta aos sentimentos, a como os fatos geraram emoções que geravam, em cascata, reflexões importantíssimas. Então a maior parte do tempo eu ficava lá, gravador ligado, com cara de nada, anotando poucas coisas, falando menos ainda. Eu era toda ouvidos. Literalmente.
Que espécie de jornalista ela ia pensar que eu era? Uma retardada que não sabe fazer comentários nem perguntas nem mesmo anotar alguma coisa no raio do seu bloquinho? Bem, eu tinha o trunfo de ter sido indicada pela Lucia, e confiei um pouco na sorte. Deu certo. Aos poucos, ficou claro que eu tinha conquistado a sua confiança. E quando ela contou da morte da sua mãe e eu chorei junto, respirou aliviada. “Que bom que você vai escrever com emoção”, ela disse. De fato, quando escrevi o capítulo da morte da sua mãe, chorei como uma criança. E chorei de novo quando li para ela em voz alta. A essa altura ela já tinha certeza de que eu não era uma estátua.
“Gostei muito, queremos publicar”. Era o editor me dizendo que a vida era bela. Lido o original que eu deixara com ele, decidiu bancar o projeto e lançar o livro. A sensação que tive era de que o sangue corria mais rápido pelas minhas veias. Na ioga, vivo tentando fazer a invertida sobre a cabeça, aquela posição que lembra uma bananeira. Ainda não consegui, mas tenho certeza de que já conheço a sensação que ela causa. É felicidade pura, sem intermediários. No dia do lançamento do livro, foi lindo ver a Ana feliz, orgulhosa, de certa forma refeita. Ali estava começando uma outra obra, uma outra vida. Uma vida sem mal-entendidos e acusações, sem culpa nem remorsos. Uma vida mais leve, como estão hoje os meus ombros.
Era isso o que eu gostaria de ter contado para a turma do curso, se os meus suores e as minhas palpitações deixassem. Enquanto eu ouvia a Lucia falar da história do livro e o meu rosto fervia, escutei alguém do outro lado da sala comentando: “Nossa, ela está roxa”. Mais tarde, quando contei isso para o meu marido, demos gargalhadas. Bem, ninguém é perfeito. Saber isso hoje, aliás, faz parte do meu processo de cura, se é que podemos falar assim. Já era ousadia demais estar presente no curso ao lado da minha terapeuta e da terapeuta do meu marido (cá entre nós, uma senhora salada) para, além disso, empunhar o microfone como se nada fosse. Mas foi nesse curso que aprendi, ao vivo e a cores, a “abrir espaço” nos meus entendimentos e ocupar outros lugares, outras cadeiras, outros sofás. É como diz José Castello, um jornalista do qual sou fã inconteste: “Escrever bem não é acertar, escrever bem é errar bem”. Estamos sempre fazendo um rascunho da vida, e o texto só termina quando o prazo acaba. Enquanto isso, fico com o carinho de quem se solidarizou com a minha, vamos dizer, “rouxidão”. Uma das psicólogas, no último dia de curso, passou delicadamente a mão no meu rosto e me disse: “Sabe quem também era muito tímido? Carlos Drumond de Andrade.” Amém.
Carla Mühlhaus é jornalista e escritora. Neste ano lançou
A bela menina do cachorrinho (Ediouro), biografia de Ana Karina de Montreuil. Para conhecer o seu trabalho, acesse
www.acasadomoinho.com